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O que é a trombose venosa profunda?

Existem dois tipos de vasos sanguíneos – as artérias e as veias. As artérias transportam o sangue do coração para o resto do corpo, enquanto as veias devolvem o sangue, de volta ao coração. As veias dos membros inferiores dividem-se em três tipos:

  • Veias superficiais – localizadas perto da superfície da pele;
  • Veias profundas – localizadas nos grupos musculares;
  • Veias perfurantes – ligam as veias superficiais às veias profundas, com válvulas de sentido único.

As veias profundas dos membros inferiores acabam por se dirigir para a veia cava inferior, a maior veia do corpo, que termina no coração. A trombose venosa profunda (TVP) consiste na formação de um trombo, numa das veias profundas. Habitualmente, as TVP’s ocorrem na pélvis, coxas ou gémeos, mas também podem ocorrer, embora menos frequentemente, em veias de outras regiões anatómicas.

A TVP costuma provocar inchaço, dor e sensação de calor. Esta patologia pode ser potencialmente grave, podendo acompanhar-se de uma complicação conhecida como embolia pulmonar. Nesta situação, o trombo liberta-se das veias profundas, viaja através da corrente sanguínea e aloja-se nos pulmões, podendo aí bloquear o fluxo de sangue, sobrecarregando o coração dificultando a oxigenação do sangue. Uma embolia pulmonar é uma emergência médica e quando maciça pode ser fatal num curto espaço de tempo.

Apesar de por vezes ser difícil reconhecer os sinais e sintomas de TVP, esta situação, uma vez diagnosticada, pode ser tratada de forma eficaz.

Quais são os sinais e sintomas de TVP?

Cerca de metade de todos os casos de TVP são assintomáticos. Os sinais e sintomas dependem da localização e tamanho do trombo. Estes incluem inchaço, sensibilidade ou mesmo dor na perna, sensação de calor ou alteração da coloração cutânea (geralmente azulada).

Quais as causas de TVP?

Quando, por alguma razão, o sistema de coagulação se encontra desequilibrado, pode ocorrer uma TVP. Uma vez formado um pequeno trombo numa veia, este pode iniciar o processo de inflamação, a qual leva à formação de mais trombos.

Frequentemente, a lentificação do fluxo de sangue ou estase nas veias da perna, aumentam o risco de TVP. Esta situação pode ocorrer quando a pessoa fica impossibilitada de se mover durante longos períodos de tempo. Consequentemente, quando o sangue se acumula nas veias, os trombos formam-se mais facilmente. Algumas causas específicas de TVP incluem:

  • Grandes cirurgias da anca, joelho, perna, abdómen ou tórax;
  • Fracturas da anca ou perna;
  • Viagens longas (situação por vezes chamada de “síndrome da classe económica”, dado o menor espaço para mover as pernas neste tipo de viagem);
  • Alterações da coagulação hereditárias;
  • Cancro.

Embora seja verdade que os voos de avião podem aumentar o risco de TVP, isto raramente ocorre. A maioria dos casos de TVP ocorrem em pessoas doentes e hospitalizadas. Existe uma maior probabilidade de desenvolver uma TVP se se for obeso, estiver grávida, a amamentar ou a tomar anticoncepcionais orais ou se se tiver uma doença inflamatória intestinal.

A maioria dos casos de TVP afectam as pernas, mas a TVP na parte superior do corpo está a tornar-se cada vez mais frequentemente reconhecida.

Entre os factores que aumentam a probabilidade de desenvolver TVP na metade superior do corpo, destacam-se:

  • Ter um cateter (tubo utilizado geralmente para administrar medicação endovenosa) inserido numa veia de um braço. Os cateteres podem irritar a parede da veia, provocando trombos;
  • Ter um pacemaker ou cardioversor desfibrilhador interno (CDI);
  • Actividade vigorosa e repetida com os braços. Este tipo de TVP é rara e ocorre maioritariamente em atletas, tais como halterofilistas, nadadores e jogadores de baseball. Esta situação, conhecida como Síndrome de Paget-Schroeter, está frequentemente associada a outras alterações anatómicas.

Quais os exames necessários?

Na abordagem inicial da TVP, o médico colhe a história clínica e realiza o exame físico do doente. Para confirmar o diagnóstico de TVP, pode ser requisitado um Eco-Doppler ou uma Flebografia.

O Eco-Doppler utiliza ondas de som de frequência mais elevada do que a perceptível pelo ser humano. Este exame permite medir a velocidade do fluxo sanguíneo e ver a estrutura das veias e, por vezes, os próprios trombos.

A flebografia é uma radiografia que permite visualizar a anatomia das veias e, por vezes, os trombos dentro destas. Durante este exame, é injectada uma substância que permite que as veias sejam se tornem visualizáveis por intermédio do raios X.

A angiografia por tomografia computorizada ou por ressonância magnética constituem também exames de imagem com potencial utilidade no estudo da TVP.

Como se trata a TVP?

A TVP é habitualmente tratada com recurso a fármacos ou procedimentos minimamente invasivos. Raramente está indicada a cirurgia.

Aquando de uma TVP, pode ser administrado um anticoagulante injectável chamado heparina. Coloquialmente, diz-se que os anticoagulantes servem para tornar o sangue mais fino. Na verdade, eles não o tornam mais fino, mas previnem que o sangue coagule tão facilmente. A heparina ajuda a prevenir a formação de trombos e impede que aqueles já existentes aumentem de tamanho. Este fármaco actua rapidamente, mas é de administração endovenosa. Alternativamente, podem ser prescritas heparinas de baixo peso molecular (HBPM). As HBPM têm muitos dos efeitos da heparina, mas são administradas por intermédio de uma injecção subcutânea no abdómen, uma a duas vezes por dia.

Habitualmente, administra-se heparina ou HBPM durante 5 a 7 dias. Após esta fase, inicia-se a toma de varfarina, um anticoagulante oral, habitualmente durante 6 meses. Uma vez que a varfarina leva alguns dias a fazer efeito, administra-se concomitantemente heparina ou HBPM nesse intervalo de tempo inicial. Durante o período em que o doente se encontra sob este tipo de tratamento, são periodicamente requisitadas análises sanguínea. O objectivo é verificar se o nível de anticoagulação está adequado para a prevenção da formação de trombos, mas não tão elevado que possa provocar hemorragias.

Se for decidido tentar “dissolver” o coágulo, tal pode ser conseguido através da trombólise. Neste procedimento, o cirurgião vascular injecta um determinado tipo de fármaco (trombolítico), através de um cateter, directamente no trombo. A trombólise tem um maior risco de complicações hemorrágicas do que a terapêutica anticoagulante. No entanto, a trombólise tem a vantagem de poder dissolver grandes trombos, e de modo mais rápido.

Raramente se recomenda a cirurgia para remover um trombo de uma veia profunda. Este procedimento é chamado de trombectomia venosa. Pode haver necessidade de a realizar se ocorrer uma complicação grave da TVP chamada phlegmasia. Esta situação pode provocar a gangrena (morte dos tecidos) no membro atingido, pode implicar a sua amputação.

Existe ainda um um dispositivo que visa prevenir as embolias pulmonares. Este aparelho é chamado filtro de veia cava. A veia cava é uma grande veia no abdómen, que transporta o sangue de volta ao coração de onde é dirigido para os pulmões. O filtro de veia cava pode ser recomendado se o doente não for candidato a terapia farmacológica ou se os fármacos não se mostrarem eficazes. Os filtros de veia cava prendem os trombos que se libertam das veias da parte inferior do corpo, antes de chegarem aos pulmões. Habitualmente o cirurgião vascular insere o filtro na veia cava através de um cateter colocado numa veia da perna ou braço.

Uma vez ultrapassada a fase inicial do tratamento, as meias de compressão elástica podem ser importantes reduzindo o inchaço e prevenindo as alterações da pele que podem surgir e continuara agravar-se muitos anos depois de uma TVP.

O que pode fazer para se manter saudável?

É sabido que a TVP ocorrer mais frequentemente no pós-operatório. Assim, antes de uma cirurgia poderão ser recomendadas uma ou mais das seguintes medidas:

  • Toma de anticoagulantes antes e imediatamente após a cirurgia. Esta atitude é especialmente útil nas cirurgias ortopédicas articulares. Podem também ser recomendados anticoagulantes em doentes que estão hospitalizados por outras patologias importantes;
  • Utilização de um aparelho tipo manga nas pernas, durante a cirurgia. Este aparelho comprime as pernas regularmente, ajudando à manutenção do fluxo sanguíneo através das veias, até que o doente possa andar novamente;
  • Utilização de meias de compressão elástica, que previnem a acumulação de sangue nas veias;
  • Andar ou exercitar as pernas o mais cedo possível, após a cirurgia.

Nota dos autores

Estes textos visam uma divulgação generalista. Procurou usar-se linguagem adequada à informação do público em geral. Pretende-se ainda assim que as noções apresentadas sejam as mais correctas à luz do conhecimento científico actual, embora de modo claro, mesmo para o leitor sem formação nesta área.

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